Tradições arquitetônicas na contemporaneidade

Os discursos tradicionalistas na arquitetura contemporânea se transformaram e se diversificaram radicalmente nas quatro últimas décadas. Superando o declínio teórico e operativo do pós-modernismo, os arquitetos tradicionalistas aproximaram-se das campanhas em defesa do patrimônio cultural, material e imaterial, bem como da busca por tecnologias e práticas sensíveis ao meio ambiente. Mesmo assim, o debate em torno da arquitetura tradicional tem tido pouca repercussão no Brasil, quando muito fragmentando-se em temáticas setoriais principalmente no domínio do patrimônio edificado e no da morada burguesa. Esta mesa de debates pretende reunir uma diversidade de olhares em torno das temáticas culturais, tecnológicas e sociais que dizem respeito à teoria e prática da arquitetura tradicional na contemporaneidade.

O estudo das tradições construtivas e, concomitantemente, do tradicionalismo artístico, vêm cada vez mais se afirmando internacionalmente tanto na pesquisa acadêmica quanto na prática profissional em contraposição à metanarrativa ainda hegemônica na historiografia da arquitetura e do urbanismo, que privilegia a sucessão linear de estilos e as vanguardas artísticas como paradigmas explicativos. Hoje em dia tanto quanto à época da “Querela dos Antigos e dos Modernos”, em finais do século XVII, a postura combativa do tradicionalismo se afirma como uma oposição criativa aos ditames do poder político e econômico. A revitalização da arquitetura tradicionalista desde a segunda metade do século XX participa de todas as dinâmicas socioeconômicas, culturais e políticas do seu tempo. Especialmente na escala urbana, o tradicionalismo oferece perspectivas críticas ou mitigadoras diante do êxodo rural, da suburbanização, e da formação de “não-lugares” ou de junk spaces.

Pesquisadores e praticantes da arquitetura tradicional, como aqueles reunidos nesta sessão, fazem da livre interpretação do legado do passado uma plataforma crítica perante os supostos consensos ideológicos e industriais impostos de cima para baixo. No ensejo dos movimentos tradicionalistas do início do século XX, buscam respostas aos desafios sociais e intelectuais advindos da perda de raízes culturais, da rápida reorganização do trabalho, e das guerras. Esta sessão abarca, portanto, uma variedade de abordagens que vão da pesquisa histórica e da teorização à prática projetual e construtiva. Visa-se, sobretudo, a fomentar o debate em torno do papel que os ofícios tradicionais da construção e a valorização de identidades culturais de cunho local e regional desempenham na sustentabilidade econômica, ambiental, cultural e social das comunidades humanas, bem como na preservação do seu patrimônio material e imaterial.

Os construtores e teóricos da arquitetura tradicional têm se associado a uma variedade de movimentos sociais e comunitários, especialmente nos países em desenvolvimento, promovendo a salvaguarda de modos de vida e paisagens, do norte da África ao Sudeste Asiático. Em regiões devastadas por conflitos ou desastres naturais, do Líbano ao Afeganistão, arquitetos e teóricos tradicionalistas têm protagonizado a reabilitação de práticas e saberes locais detidos por comunidades desprivilegiadas. Essa ênfase não implica excluir do debate o tradicionalismo erudito, produzido num recorte econômico e cultural vinculado seja a agentes privados na “elite” social, seja ao poder público ou a instituições religiosas. O ostracismo crítico a que têm sido relegadas estas práticas resultou, não na sua eliminação, mas na carência de repertórios teóricos e estéticos, e sobretudo de fundamentos teóricos, para a reflexão crítica sobre a continuidade e a ruptura de tradições nas metrópoles globais contemporâneas, com especial impacto no domínio da conservação e restauro de edifícios históricos.

Outrossim, a atuação dos intervenientes nesta sessão toca, em diversas ocasiões, no problema da caracterização de um espectro de repertórios arquitetônicos tradicionais que vai desde o escopo de saberes vernáculos até aquele da teoria tratadística clássica, implicando problematizar o campo de atuação do arquiteto ao longo desse espectro, seja como pesquisador, projetista ou construtor. O papel do ensino de arquitetura e urbanismo na constituição e no emprego crítico desses repertórios tem especial relevância para todos os participantes aqui reunidos.

No Brasil, a arquitetura tradicionalista alicerçou o assim chamado “estilo patrimônio” de intervenções em sítios históricos realizadas pelo Iphan até a segunda metade do século XX; a este tradicionalismo de inspiração neocolonial se deve a atual aparência de locais como Ouro Preto, Paraty e São Luiz do Paraitinga. A rejeição tardia do “estilo patrimônio”, em nome da adesão aos preceitos teóricos modernistas das Cartas de Atenas (1931) e de Veneza (1964), levanta contradições ainda não devidamente avaliadas frente à mais recente problemática em torno da salvaguarda de práticas sociais e saberes profissionais, indispensáveis à valorização e à conservação do patrimônio cultural. O debate acerca da continuidade cultural implicada pelas tradições arquitetônicas torna-se ainda mais necessário nos âmbitos do estudo historiográfico e da preservação da arquitetura moderna que emprega os estilos ecléticos, assim como daquela do pós-modernismo.

Se há, de fato, uma apropriação sobretudo estética do tradicionalismo em empreendimentos imobiliários especulativos, como no efêmero “neoclássico paulista” da virada deste século, esta apropriação tem se direcionado desde então predominantemente para a esfera rural, onde vem contribuindo para a preservação de fazendas históricas. Mais importante, o senso de responsabilidade social e ambiental que vem crescendo na comunidade arquitetônica brasileira tem sido responsável pelo resgate de conhecimentos tradicionais também em novas construções: adobe, carpintaria, azulejaria e ladrilharia têm, assim, reaparecido tanto no restauro do patrimônio cultural — substituindo o deletério emprego do cimento Portland — quanto em novas construções motivadas por preocupações ecológicas. Este processo vem pondo em xeque o conceito industrial de “ciclo de vida” das edificações e de seus componentes, substituindo-o por uma perspectiva de manutenção perene e de minimização dos resíduos.

Os participantes desta mesa de debates oferecem perspectivas sobre variados aspectos da arquitetura tradicional contemporânea em diversos países. Suas contribuições vão desde a pesquisa historiográfica e a teoria e prática da preservação do patrimônio até a recuperação de sítios degradados por conflitos ou pelo descaso, passando pela prática projetual cotidiana com princípios e tecnologias tradicionais.